29 fevereiro, 2012

Silêncio

Lendo mais sobre Clarice, eis que me deparei com Silêncio... E aqui esta.


SILÊNCIO


É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembranças de palavras. Se és morte, como te alcançar. 


É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível - sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro - tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz. 


A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes. 


Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas. 


Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece. 


O coração bate ao reconhecê-lo. 


Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta - como ardemos por ser chamados a responder - cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga - como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença. 


Até que se descobre - nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio. 


Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror - o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio. 


Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio. 


Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se vêem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora. 


Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo - de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia - ei-lo. E dessa vez ele é fantasma.
Clarice Lispector


Val Vince...

Descontrole


Fico realmente preocupada comigo quando a comida começa a entalar, ou descer querendo voltar...
Não sei mais se acredito que algo possa me surpreender, acho que hoje é mais fácil decepcionar-se, por isso não devemos esperar nada, para que a dor seja mais amena, se é que isso é possível...
Só quem esteve deste lado entende, quem é figurante só passará a entender quando for o personagem principal... É fácil apontar o dedo, dar conselhos, cada um sente de uma forma, e estas formas são pessoais... Cada um vê de uma forma... Já ouvi tantas pessoas dizerem _ Não é assim, não chore. 
E nas voltas que o mundo dá, por motivos aparentemente menores, a mesma pessoa estava destruída, eu até entendo porque sou assim, é mais fácil eu mostrar a você que a vida é bela, mesmo eu estando num momento completamente cinza, sempre tive meu lado psicolouca, e tento a trancos e barrancos me equilibrar nele, balanço o meu trapézio, esbarro contra mim mesma, caiu, me agarro a mim, me derrubo, levanto, tropeço, mas não esmoreço, mesmo quando sinto que cheguei ao sub-solo do inferno, ainda assim subo navalhando-me muitas vezes, chegando a estilhaçar-me, achando que nada mais há de me surpreender, negativamente falando, mas há, infelizmente há...
Sei que o Mundo é belo, sei o quanto vale o sorriso de uma criança, a alegria do nascimento, um abraço sincero, um olhar verdadeiro, um beijo com sabor, um afago, o reconhecimento, conheço o valor do cheiro da chuva que amo e cada gota dela em meu ser, o canto dos pássaros, o som e o silêncio, e a natureza no geral, os animais... Ah os animais, como sempre digo, valorizo mais os considerados irracionais...
Tenho uma imensidão de sentimentos em mim, loucos para fluírem, gritarem, serem compartilhados, explodirem, são bons, leves, serenos, mas hoje são aprisionados...
As vezes caminho sorrindo, e choro aos que percebem a dor no meu sorriso...
Queria curar algumas dores, mas como, se minha asa esta machucada, preciso curar-me... ficar inteira...
Há momentos em que nem sinto, apenas respiro...
Hoje estou assim, ausente de mim... 


Meus devaneios...




Em todos os sentidos...
"Amar é tão DOCE, mas pode ser
tão MORTE"...



''Tudo vai passar"...
"Isso também vai passar''...
Mas e se não passar?
Apenas acomodarei em algum aposento dentro do meu ser...
E eu passarei por isto tudo...



"Que minha solidão me sirva de companhia...
Que eu tenha a coragem de me enfrentar...
Que eu saiba ficar com o nada...
E mesmo assim me sentir, como se estivesse plena de tudo".
Clarice Lispector


Val Vince...

Paz



Tudo o que almejo hoje é a Paz... Minha busca incessante será pela Paz...
Preciso de Paz em tudo o que me cerca, quero sentir a Paz em tudo o que faço, e ver a Paz em tudo o que fazem...
Parece difícil, tão quanto a Verdade? Sim parece... mas e a Fé?
É em busca dela que vou, dentro de mim, ao meu redor, nos olhos das crianças, nos animais, na natureza, no Universo, é inevitável falhar, sim é... Perco a minha sanidade que se torna insana... Mas é repugnante não ter no que acreditar, e eu acredito que encontrarei a minha Paz... 
Aquela que me libertará desta Guerra que implode em mim, e a tudo a minha volta... Quero curar-me... Cansei desta igualdade, preciso aceitar as escolhas alheias, mesmo sendo as piores, e mesmo assim conseguir manter a minha Paz, mas preciso estar viva para que isto aconteça... 
Não posso Abraçar o mundo, curar todas as dores, infelizmente, percebi que muito não depende de mim... Depende de cada um de nós, e de nos ajudarmos...
Acho que é hora de verdadeiramente curar a minha asa...
Desejo o mesmo as pessoas que também vivem em Guerras, seja consigo, quanto com o próximo... e parabenizo as que já vivem em paz...
Lágrimas descongestionam um corredor de uma alma sufocada pelo peso do "mundo".. digo das pessoas...
Tudo assusta... Isso tem que passar...
Não posso tentar guardar passos alheios, e a Liberdade? O Livre arbitrío? Se eu estou reclusa, não posso pedir o mesmo as pessoas, independente do sentimento...
Cada ação nos levará a uma ou duas reações, cada escolha nos levará a pelo menos duas renuncias... e na penumbra que me encontro, não consigo enxergar com clareza o que minha alma anseia... Então que o resto se faça ao longo da caminhada, e ao longo do que cerca esta caminhada... e se lá na frente eu descobrir que não era o melhor, a culpa será unicamente minha... O tempo pode ser perigoso, mas pode ser valioso... ele mostra muito, muito de cada um... Deve se fazer o que vem do coração, se tornar um personagem a sombra daquilo que almeja é ilusório, e utopias passam... alias para algumas coisas acredito que, se tem que ser, será...

Eu tenho sede...
Tenho fome...
Eu tenho FÉ...



Ou você se cansa lutando pela paz ou morre."
John Lennon


Chorar é dar paz à alma. É dizer ao coração: "- Tem paciência, que tudo vai passar!"
Concelina Pinheiro (H.C)


Peace in the heart, peace in the world ...
Peace...




Val Vince...



24 fevereiro, 2012

A morte

Acho que por andar meio depressiva, peguei-me pensando na dona Morte, aquela que é nossa única certeza, afinal começamos a morrer a partir do nascimento, me encuquei tanto com o assunto que fiquei matutando, e se de repente for eu, por ser minha hora ou por uma fatalidade que à anteceda, eu sei que existem milhares de opiniões sobre isso, principalmente aquela frase, "peru não morre na véspera", eu  acredito no drible a morte, ou seja uma segunda chance, mas isso são outros quinhentos... minha inquietação foi, e minhas senhas, minhas redes sociais, meus objetos pessoais, matutei tanto a ponto de querer dar a alguém de confiança tudo, para que se algo acontecer tenham de certa forma acesso a mim... rs, esta esquisito isto, eu sei, então vou postar um texto de Pedro Bial que adoro, e a música que estava no vídeo do texto... Bora lá...


A morte
A morte é ridícula.
Você combinou de jantar com a namorada, está em pleno tratamento dentário...
Tem planos para semana que vem, precisa autenticar um documento em cartório...
Colocar gasolina no carro e no meio da tarde...
MORRE...
Como assim?
E os e-mails que você ainda não abriu?
O livro que ficou pela metade?
O telefonema que você prometeu dar a tardinha para um cliente?
Não sei de onde tiraram esta idéia:
MORRER...
A troco de que?
Você passou mais de 10 anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que não serviram para nada, mas se manteve lá, fez as provas, foi em frente.
Praticou muita educação física, quase perdeu o fôlego. Mas não desistiu.
Passou madrugadas sem dormir para estudar para o vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de duvidas quanto à profissão escolhida...
Mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente...
De uma hora pra outro, tudo isso termina...
Numa colisão na freeway...
Numa artéria entupida...
Num disparo feito por um delinqüente que gostou do seu tênis...
Qual é?
Morrer é um chiste.
Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida.
Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e penduradas também algumas contas...
Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas...
A apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira.
Logo você que dizia: das minhas coisas cuido eu.
Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer.
Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas e mulheres magras e morre num sábado de manhã.
Se faz check-up regulares e não tem vícios, morre do mesmo jeito...
Isso é para ser levado a sério?
Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser bem vindo...
Já não há muito mesmo a fazer, o corpo não acompanha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase nada guardado nas gavetas. 
Ok, hora de descansar em paz.
Mas antes de viver tudo?
Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas.
Morrer é um exagero.
E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas.
Só que esta não tem graça.
Por isso viva tudo que há para viver.
Não se apegue as coisas pequenas e inúteis da vida...
Perdoe... Sempre!!
(Pedro Bial)


Val Vince